Retrato das Empresas do Brasil 2026
Pejotização e trabalho
Neste capítulo · 2 seções
Em números
- Aumento das aberturas de apoio administrativo de 2015 a 2025, em vezes
- 11,7
- Aumento do total de aberturas de 2015 a 2025, em vezes
- 2,5
- Aberturas de SCPs na saúde em 2025
- 4.768
- Parcela das SCPs de saúde ativas que ficam no Rio de Janeiro
- 56%
Pejotização e trabalho
Atividades típicas de quem presta serviço como pessoa jurídica cresceram muito mais rápido que o total de aberturas. As aberturas de apoio administrativo cresceram 12 vezes de 2015 a 2025, contra 2,5 vezes do total. A base não mostra se essas pessoas eram empregadas antes. O levantamento do Ministério do Trabalho citado abaixo aponta essa migração, mas não por atividade.
Aberturas em atividades típicas de PJ cresceram até 12 vezes em dez anos
Aberturas em 2015 e em 2025 nas atividades citadas no estudo
- 2015
- 2025
| Categoria | 2015 | 2025 |
|---|---|---|
| Apoio administrativo | 16.560 | 194.150 |
| Promoção de vendas | 43.363 | 246.585 |
| Entregas rápidas | 11.636 | 102.531 |
| Suporte em TI | 4.233 | 9.449 |
| Software sob encomenda | 1.650 | 12.285 |
| Advocacia | 5.889 | 30.023 |
| Consultórios médicos | 7.149 | 32.233 |
| Consultoria empresarial | 7.662 | 27.126 |
Seleção de atividades, não estimativa do total de trabalhadores PJ. Sete das oito cresceram mais que o total de aberturas (2,5 vezes); suporte em TI cresceu 2,2 vezes. O cadastro não mostra se essas pessoas eram empregadas antes. Contagens menores que 10 são suprimidas. Fonte: Receita Federal, dados abertos CNPJ, base de 9/8/2026 · universo empresas, CNPJ matriz · ano de abertura e CNAE principal.
- Dois perfis. Na base da pirâmide (apoio administrativo, promoção de vendas, entregas), quase todos são MEI. No topo (TI, software, advocacia, medicina, consultoria), predominam Ltda e sociedade unipessoal, porque essas atividades não podem ser MEI.
- O governo mede a migração. Segundo levantamento do Ministério do Trabalho divulgado pela imprensa, cerca de 5 milhões de pessoas saíram da CLT e abriram CNPJ no mesmo mês ou no seguinte, entre 2022 e março de 2026, e três em cada dez MEIs são de ex-CLT.
- Mais gente por conta própria com CNPJ. A PNAD mostra 27,1% dos trabalhadores por conta própria com CNPJ em 2025, contra 15% em 2012. Entre quem tem ensino superior, são mais da metade.
- Risco jurídico em aberto. O STF ainda não julgou o mérito do Tema 1389, que define os limites da contratação via PJ.
Hipótese: parte relevante do crescimento dessas atividades é trabalho que antes era emprego formal. Os microdados públicos da RAIS e do Caged não identificam pessoas, então não dá para ligar quem saiu da CLT ao CNPJ que abriu. O que o estudo pode fazer é comparar movimentos por município, atividade e período, reproduzir os agregados do Ministério do Trabalho e pedir tabulações especiais por LAI. Para o RH, o recado já vale: uma parte da força de trabalho está fora da folha e dos indicadores tradicionais de pessoas.
O crescimento das SCPs na saúde
Há 23 mil Sociedades em Conta de Participação (SCPs) ativas na saúde. A SCP é uma sociedade sem personalidade jurídica própria: um sócio ostensivo opera o negócio em seu nome, e os sócios participantes recebem parte do resultado. Na saúde, o padrão é uma clínica ou hospital como sócio ostensivo e um único sócio pessoa física em cada SCP.
- As aberturas cresceram 18 vezes em dez anos. Foram 265 em 2015 e 4,8 mil em 2025. Desde 2023, as aberturas se estabilizaram perto de 4,8 mil por ano. A série começa logo depois de a Receita passar a exigir CNPJ das SCPs (IN RFB 1.470/2014), o que pesa na comparação com os primeiros anos. Desde 2022, a saúde responde por cerca de metade de todas as SCPs abertas no país.
- O fenômeno é concentrado em poucas organizações. Algumas dezenas de clínicas e hospitais, cada um com mais de cem SCPs, respondem por 80% das SCPs ativas de saúde. O estudo não identifica essas organizações. O capital mediano de cada SCP é de R$ 5 mil.
- O Rio de Janeiro tem 56% delas, seguido de São Paulo e Pernambuco.
- Hipótese: a SCP está sendo usada como forma de remunerar profissionais de saúde, sobretudo médicos, fora da CLT e da pejotização tradicional. O dado mostra a estrutura, não a relação de trabalho nem o tratamento tributário. A SCP é uma forma societária legal, e o estudo não avalia se cada caso é regular. Essa leitura ainda não foi revisada por especialistas em direito do trabalho e tributário.